FILHOS
DE PAIS SEPARADOS
“Mas se alguém não cuida dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior que o incrédulo” (1 Timóteo 5:8).
Outro dia recebi um spam com o seguinte
título “Festival de Noivas – casar ficou mais fácil”.
E me surpreendi com a simplicidade com que muitas empresas tratam o tema casamento,
oferecendo, muitas vezes, todas as condições para levarem os noivos
ao altar, em suaves prestações. O que se esconde por trás
da propaganda é uma realidade muito mais dura que se possa imaginar.
As relações familiares estão entre as mais complexas relações
humanas existentes. Desenvolver os relacionamentos familiares é uma atividade
extremamente estressante, porque, dentre outras razões, encontramo-nos
em uma situação inédita em nossas vidas. Por essa razão,
não é difícil encontrarmos pessoas que, poucos anos após
fazerem uma opção de casamento com alguém, estarem sozinhas,
ou com um novo casamento, e às vezes o que é mais complicado:
com filhos profundamente abalados pela separação dos pais.
Trazendo esse tema para a igreja cristã, um outro fator desperta preocupação:
a falta de ambiente e pessoas potencialmente preparadas para lidar com ovelhas
emocionalmente doentes, sofrendo de insegurança, agressivas e infelizes.
Infelizmente, a maioria dos pastores ainda desconsidera a importância
psicossocial da vida humana. Para muitos, doenças emocionais, carências
afetivas, traumas psíquicos, herdados de uma separação,
são tratados com jargões do tipo “repreendo em nome de Jesus”
ou “sai satanás”. Essa lacuna gera uma crise de identidade
dentro das igrejas. As pessoas geralmente se perguntam: “por que não
consigo externar para minha vida social aquilo que sou dentro dos templos?”
No ambiente de trabalho, um cristão grita com seus subordinados, um outro
furta ou deseja a mulher do próximo, chegando ao ponto onde nossa identidade
cristã não apresenta mais diferença em relação
à identidade do ímpio. O que afirmo é que a idéia
de espiritualizar tudo só aprofunda os problemas comportamentais do necessitado.
Mas esse é um ponto do qual nos ocuparemos em outro estudo.
Nos bancos das igrejas é comum encontramos pessoas que passaram pela
experiência da separação. Os filhos, como herança
de um matrimônio que não deu certo, apresentam uma variedade de
estados emocionais. Alguns têm medo da vida, outros são bem ajustados.
Alguns têm bons relacionamentos com os pais, outros foram abandonados.
Alguns ainda estão profundamente magoados, outros já aprenderam
a perdoar. Enfim, os filhos que melhor enfrentam a separação dos
seus pais são aqueles que possuíam uma forte estrutura emocional
– os que se sentiam amados e aprenderam a ser responsáveis por
si mesmos e por suas reações. Porém, nem todos os filhos
possuem uma “saúde” emocional estabilizada. Para esses, a
separação se torna um processo psicológico devastador,
com profundas cicatrizes emocionais, que reflete na relação social
e escolar.
Meu desejo, ao escrever essa reflexão, é fazer com que os pais
percebam que as suas reações com a separação geralmente
aumentam a dor dos filhos. É preciso perceber que, embora o matrimônio
não tenha logrado êxito, a boa relação tem que ser
mantida, principalmente quando se deixam frutos do casamento. Gostaria que os
pais superassem seus orgulhos, os aborrecimentos, as culpas, enfim, deixassem
de olhar um pouco para o espelho e passassem a pensar, como prioridade maior,
nos seus filhos. Muitas vezes são eles que mais sofrem com o desajuste
familiar. Se não mais conforta aos pais saberem que DEUS não é
favorável às separações e aos divórcios;
se não há mais caminhos de esperança a trilhar, que reste,
então, a preocupação pelo futuro dos filhos. Pais separados
encontram amparo nas igrejas, com psicólogos, grupos religiosos, apoio
de amigos, organizações destinadas a esse objetivo, familiares,
amigos, conselheiros no geral. Os filhos, com freqüência, são
a parte negligenciada e habitualmente se sentem sozinhos, desamparados, sem
condições de se defenderem. A unidade familiar é a principal
referência de um filho. Ele cresceu e se reconheceu dentro de uma família
(pai, mãe e irmãos). Essa referência passou a ser o seu
mundo, a sua identidade. A quebra dessa unidade cria uma série de dúvidas
e tudo se torna instável.
Tenho um grande amigo de infância em Olinda, Pernambuco, que teve que
presenciar a separação dos seus pais ainda criança. Após
esse desligamento, apareceram profundos distúrbios emocionais e até
mesmo doenças. Ele cresceu com a idéia de pai que a mãe
sempre lhe ensinou: “seu pai é a causa de todos os problemas”.
Mais de 30 anos se passaram, esse amigo se casou, também se separou,
e até hoje as suas dificuldades emocionais e físicas se agravaram.
O pai faleceu recentemente e nunca teve algum contato com o filho. Geralmente,
o pai ou mãe tenta esconder dos filhos suas próprias dores; porém,
expressá-las de forma direta ou injusta, pode legitimá-las.
Certa vez, ao fazer uma atividade de redação voltada a adolescentes
(o tema era família), tive surpresas em alguns dos textos. Um jovem escreveu:
“eu choro, à noite, quando estou na cama, mas minha mãe
nunca fica sabendo”. Uma garota escreveu: “Eu procuro não
demonstrar ao meu pai uma dor que eventualmente é minha e é dele
também”. Em outros textos, vi a preocupação que muitos
filhos têm com a falta de diálogo dos pais depois da separação.
E o curioso de tudo foi saber que mais de 50% dos alunos daquela classe onde
estava sendo desenvolvida a atividade de redação eram oriundos
de pais separados.
Sem dúvida, toda e qualquer separação tem efeitos negativos
em todos os que tocam. Alguns psicólogos estimam que, a cada quatro crianças
afetadas por casamentos desfeitos, três sofrerão com seus próprios
divórcios. O círculo vicioso é talvez a maior tragédia
proporcionada pela separação.
Acredito que é possível reverter esse quadro. Como disse anteriormente,
devemos fazer com que os pais olhem muito além de suas mágoas
e raivas, mantendo como prioridade, em suas mentes, as conseqüências
devastadoras que seus filhos podem apresentar no futuro. Uma separação
até pode resolver alguns problemas, porém, freqüentemente
causará novos. Somente o milagre do perdão e da reconciliação
podem impedir uma outra geração de filhos divorciados. Meu desejo,
ao invés de uma geração frustrada, é ver uma geração
abençoada no propósito familiar; não só com desejo
de subir ao altar, mas também de permanecer ajustada no compromisso de
superar todas as dificuldades, e encravar verdadeiramente, no seio da humanidade,
o selo do Amor que o apóstolo Paulo proclamou na sua Primeira Carta aos
Coríntios, capítulo 13: “tudo sofre, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta” (vers. 7). Somente em CRISTO, renovando
diariamente o compromisso com a Palavra de DEUS, poderemos transformar esse
meu sonho (que acredito ser seu também) em realidade. Que DEUS nos ajude!!
FERNANDO CÉSAR – Escritor, autor dos livros “Não Mude de religião: mude de vida!”, “Pódio da Graça” e “Antes que a Luz do Sol escureça”. Também é líder do Ministério Interdenominacional Recuperando Famílias para Cristo.
www.fernandocesar.com